sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

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Um ano glorioso para a Família BuellBR

quarta-feira, 28 de março de 2012

Chegamos em Floripa...


Preciso iniciar falando um pouco sobre amizade, sempre as plantei e cultivei com esmero e talvez seja por isso que tenho vários amigos de infância e que ainda são presença constante na vida atual. O prédio onde morei dos nove aos vinte anos contribuiu e muito para isso, pois éramos quatorze moleques que se tornaram grandes amigos, companheiros, irmãos. Fazíamos tudo juntos, brincadeiras, jogos, passeios, viagens, todos tinham acesso ilimitado a casa dos outros e era comum você “visitar” um deles e encontrar algum sentado à mesa do almoço ou jantar.

Um deles – que merecidamente ganhou essa história de hoje – jogava vôlei no clube paulistano, e fora convocado para a seleção paulista, onde participou de um torneio nacional sei lá aonde. De qualquer forma o que interessa é que ele voltou se dizendo amigo da equipe feminina de Santa Catarina, e que muitas delas moravam em Florianópolis, doravante carinhosamente chamada de Floripa, e que haviam convidado - a ele e seus amigos - para conhecerem a ilha. Poucas conversas, pouco planejamento, e lá fomos nós. Era Julho.

Estávamos em três amigos, o “Fritz”, o “Fuinha” e eu, no carro fomos conversando sobre as meninas e onde ficaríamos, já que uma delas iria nos emprestar sua casa de veraneio na praia de Canasvieiras – vale dizer que nessa época essa praia era quase deserta, ainda mais no brutal inverno de julho. Nessa época também a estrada era sinistra, muitos caminhões e todos completamente malucos, até hoje tenho um frio na barriga quando vou cruzar um caminhão com aquele boneco aceso da Michelin grudado no espelho, então nossa viagem durou cerca de 10 horas, um porre. Chegamos no final da tarde, quase anoitecendo e fomos direto ao apartamento da nossa anfitriã, que ficava no centro do continente (assim se separa floripa, continente e ilha, centro e praias).

Quando abriram a porta do apartamento começaram as surpresas, a primeira e deveras agradável é que a Raquel era linda, a segunda e nem tão agradável assim é que seu irmão mais velho era um maluco de dar nó. Sentamo-nos à mesa da cozinha enquanto esperávamos receber as chaves e instruções sobre a casa emprestada, nesse meio tempo o louco do irmão, de nome Ferrari, começou a nos oferecer as cachaças regionais, ora uma branca, ora uma amarela, ora uma vermelha e assim ia, o cara era tão doido que ele fumava na cozinha e jogava cinza e a bituca no chão, ainda dava aquela pisada para apagar direito, isso eu nunca havia visto. Pegamos as chaves e mapa, mas não fomos direto para nosso lar provisório, o Ferrari nos levou para conhecer os bares da Ponte de Baixo, um bairro muito boêmio e maluco da cidade, e disse certo sim, bares, no plural. Não preciso dizer que não demorou muito para que nós três estivéssemos completamente bêbados, porém só reconhecemos isso quando o Fuinha começou a vomitar e destruir um banheiro do bar, resolvemos ir para casa.

Era longe, algo perto dos vinte quilômetros da cidade à Canasvieiras, o Fritz dirigindo (único maior de dezoito e com carta) eu no passageiro e o Fuinha atrás, carro de duas portas e de repente começaram os torpedos. O Fuinha cuspia e vomitava, ou vomitava e cuspia de forma incessante, eu me abaixei no banco e o desci, como se alguém fosse entrar, o Fritz que dirigia não teve a mesma sorte, levava aos montes os asteroides grudentos, e foi assim até chegarmos a casa. Assim que estacionamos, fomos conhecer a casa, grande, com uns oito quartos, daquelas moduladas que vão crescendo conforme vai sobrando grana. O Fritz resolveu lavar o carro na mesma hora, aproveitou a mangueira que achou e lavou o Fuinha também, enquanto isso eu fiz um belo sanduba e fiquei admirando a ação do lava rápido, depois me disseram que eu era nojento, mas na verdade, eu sou gordo e tenho fome.

Todos de banho tomado, o Fritz e eu de chuveiro e o Fuinha de mangueira, fez a manguaça passar um pouco, fomos ver os quartos e decidimos que no quarto da frente que tinham dois beliches ficaríamos o Fritz e eu, e no quarto com cama de casal o Fuinha, ninguém quis dividir quarto com o cuspão. Sentados todos na cama o Fuinha e eu lembramos de como era linda a amiga do Fritz e de como poderíamos ficar com ela, piscamos um para o outro e começamos a nossa “armação”, seria fácil, quando o Fritz dormisse eu assobiaria, o Fuinha viria e mataríamos o amigo de longa data, colocaríamos ele no carro e dirigiríamos ate a casa da Raquel, ela desceria, entraria no carro e pronto. Ainda continuamos com outros assuntos durante algum tempo, até que o Fuinha deu boa noite e foi para seu quarto.

Passados alguns instantes, já com todas as luzes apagadas, vejo o Fritz se levantar e sair do quarto, passados poucos segundos ele volta e deita, achei normal até o dia seguinte quando acordei antes dele e percebi que o cara estava dormindo de roupa e tênis, e ainda com um facão de cozinha embaixo do travesseiro, ele realmente achou que nossa história era verdadeira. E assim foi nossa primeira noite em terras catarinas.



------------ Em Tempo -----------



Hoje a filha do Fritz está sendo operada por ocasião de um acidente, essa História é cem por cento dedicada a ela e a esse irmão de coração, de trinta e cinco anos de amizade. Todos estamos orando e torcendo pela pequena Gi. Te amamos, Beijos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Até que o amanhã nos separe

Existem coisas que não têm a menor chance de funcionar, dar certo, ir para frente, vingar... Sabe aqueles projetos onde nitidamente a carroça anda à frente dos bois, pois bem, meu primeiro casamento foi um desses projetos fadados à falência prematura, contudo tive que dar uma oportunidade ao destino e apostar além de minhas fichas, o fiz.

Éramos jovens, muito jovens, com apenas dezenove anos estava eu assinando uma enormidade de documentos, correndo atrás de datas em igreja (tinha que ser rápido, por razões óbvias), cartório, roupa, convites. Realmente esse processo é muito chato e desgastante, além de oneroso, quem inventou tudo isso é um gênio das finanças e da psicologia feminina. Por mim tudo terminaria como começara, num breve “jato” de tinta e pronto, estaríamos casados, contudo novamente me rendi as vontades dos que me cercavam e fiz toda a lição de casa.

Todos os preparativos devidamente providenciados, meus familiares chegando do interior, e, chegou o grande dia, era um sábado. A cerimônia estava marcada para as 18 horas, impreterivelmente pois a agenda do padre parecia atendimento do inamps, seriam realizados uns quatro casamentos naquele dia, o meu seria o primeiro da lista.

Acordei no sábado com uma movimentação diferente em casa, inicialmente achei que seria somente porque a população aumentara substancialmente com os parentes dividindo as poucas cadeiras, mas era um pouco pior, estávamos sem energia. Naquele tempo a internet era um sonho de algum maluco e os atendimentos não eram eletrônicos, a vantagem - já atendiam com um alô, pode falar, a desvantagem - meia dúzia de atendentes disputavam a enxurrada de ligações recebidas em casos mais emergenciais. Como não poderia ser diferente, aquele dia foi de uma emergência sem tamanho, um” black out” geral na cidade, sem previsão de retorno, assim começou o fim.

“O blecaute se deu devido à queda acidental de um elo de ligação da subestação de São Roque, interior de São Paulo, com a linha de transmissão em corrente contínua da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Inaugurada em 1984, a usina transmitia em caráter experimental a energia gerada por três turbinas, de 700 megawatts cada. Além de São Paulo e Distrito Federal, também foram atingidos os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul e parte do Espírito Santo. São Paulo foi o estado mais afetado. O blecaute foi o mais longo do estado até aquele momento.”

Bem, com as canecas já preparadas para os banhos de gato, fomos aos poucos nos adaptando e acostumando com a situação, as mulheres sofreram um pouco a mais, contudo as cinco e meia o comboio estava partindo de casa em direção à igreja. Quanto à noiva, nem notícia. Ela havia ganhado um dia inteiro no salão (dia da noiva) e não existia celular, portanto incomunicável. Claro que eu havia pensado por várias vezes e também se tornou comentário frequente em casa sobre como ela estaria “se virando”.

Por orientação do padre, fomos direto à sacristia, onde esperaríamos o sinal para ficarmos a postos e ver a entrada da noiva. A energia havia sido reestabelecida, porém o sol e o calor castigavam, ainda mais para mim e os padrinhos, todos de meio fraque. Lá pelas seis e tantas o padre entrou na sacristia batendo os pés, dizendo que não poderia mais esperar pela noiva, ficou um pouco mais bravo quando viu que havíamos bebido toda sua água benta, armazenado em um filtro, certamente, bento também – Sua santidade, não tá dando, olha o calor. Depois dessa não o vi mais até o início da cerimônia.

Os convidados do primeiro e segundo casamento já se misturavam e se atropelavam pela igreja quando finalmente recebemos a notícia da chegada da noiva, nos recompomos na medida do possível e fomos nos posicionar no altar. Entrada ao som de Led Zeppelin (juro) e logo começamos a cerimônia, já anunciada pela santidade de que seria a mais curta da história da Igreja de São José, ledo engano.

Um enorme padrinho foi posicionado no último posto do altar, bem ao lado de outro imenso pilar que sustentava um vaso muito bem decorado, e, no meio da cerimônia eu olho para ele e sua par, ambos com cara de que haviam peidado na igreja, mas era pior. Ele estava passando mal com o calor e em instantes desabou, abraçado no pilar e vaso, trouxe todos ao chão fazendo um barulho sem igual na acústica redoma. Tentei me levantar para ajudar - neste momento estava ajoelhado - mas o padre logo me segurou e disse, se sair daqui eu paro tudo, obedeci.

Corre corre daqui, abano e água dali, levantaram o sujeito e sumiram com ele, recomeçamos e logo terminamos. Terminamos também o relacionamento, alguns poucos meses depois.

Certamente àquela cerimônia iria ficar na memória de muitos, do celibatário aos convidados intrusos. Valeu a pena, claro que sim, hoje estão nas minhas memórias.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Caçada


Não poderia ser em hora mais oportuna a escrita deste conto, afinal estou no meio do mato e do nada, e essa noite dormi acompanhado de uma pequena e graciosa rã. Lembrei dos programas do Discovery Channel sobre as venenosas rãs de nossas matas, o que me tranquilizou é saber que quanto mais colorida, mais venenosa – algumas chegam a paralisar um macaco grande somente com o encostar dos dedos em suas costas – pois a minha companheira de quarto era bem branquela, quase uma lagartixa, então sem problemas com veneno. Também não tenho pavor deles, o chato é o barulho, quando eu apagava as luzes e desligava a televisão ela vinha à vida e saia pelo quarto, ora perambulando, ora saltitando, em busca de um lanchinho rápido. Dormi com a luz acesa e ela “presa” debaixo da cama.

Bem, remontemos a uns 28 anos passados, estávamos eu, o Hans e o Claudinho (nomes fictícios.... hehehe) na bela e confortável casa dos pais do Claudinho, bem no alto de uma das muitas montanhas de Campos do Jordão – cidade de veraneio dos paulistas – e como todo inverno na região montanhosa e de grande altitude, fazia muito frio. Os passeios diurnos eram sempre os mesmos, ir ao centrinho ver o movimento, beber algo e esperar o relógio apontar que a noite estupidamente gelada estava por chegar, então era hora de nos recolhermos à casa, tomarmos chocolate quente e nos jogarmos nos enormes sofás de couro, cobertos até os dentes. Como gosto de um agito, essa vida tranquila e monótona deu para mim em poucos dias, começamos a pensar em outras atividades mais desafiadoras, até que o Claudinho teve a excelente ideia de irmos caçar rã.

O planejamento foi iniciado, roupas aos montes - lembrem-se de que as rãs têm hábitos noturnos, portanto a caçada deveria seguir esse horário – sacos plásticos de lixo para os pés, e claro, arpões feito de espetos de churrasco presos e reforçados com cabos de vassoura, nos “uniformizamos” para a batalha e aprovamos a armadura, tira tudo e vamos ao próximo passo. Teria que ser naquela noite, não queríamos esperar mais, então fomos a um bar de caiçaras (regionais) à tarde e conversamos com alguns “amigos” do Claudinho, um deles topou imediatamente e disse que iria chamar mais dois colegas para nos acompanhar, como iríamos de Jipe caberiam os seis. Voltamos à casa, esperançosos de que fosse uma noite daquelas: diferente, inovadora, desafiadora e inédita. Foi.

Anoiteceu, nos paramentamos e entramos os três no carro, todos ocupando o mesmo banco inteiriço do velho e semidestruído jipão sessenta e bolinha. Os dois bancos em perpendicular e sem forração almofadada ficariam para os acompanhantes. Saímos. Alguns solavancos pelas ruins estradas de terra da região e chegamos ao bar novamente, local esse designado como ponto de encontro do primeiro elemento, lá estava ele já mais para lá do que para cá e com todos os indicativos de que dali ele não saíra desde nossa conversa matutina. Pulou para dentro da caçamba já arrastando o segundo elemento, fomos à busca do terceiro. No caminho “saculejante”, eles conversavam sobre quem iria levar o “LP”, afinal, que bosta viria a ser esse tal de LP? Olhamos um para o outro e baixinho tentávamos descobrir. Lanterna e Pilha foi o mais votado, nos estávamos com as nossas. Lança Perfume também foi cogitado, será que apostaríamos corrida com as rãs até elas se cansarem... Chegamos ao lar do terceiro elemento, este portava um embrulho debaixo do braço, o mistério estava por acabar, ao pular na caçamba foi logo mostrando seu Litro de Pinga de gargalo único e compartilhado. Pegamos a estrada em direção ao sul de Minas Gerais, local da caçada. Coisa de umas duas horas de viagem pelas mais estreitas e sinuosas estradas de terra, chegamos a mais um bar, esse quase no meio do nada mesmo, o LP foi reposto, esticamos as pernas e seguimos viagem, agora certos do caminho explicado com detalhes pelo dono do buteco.

Conversando com os caiçaras, descobrimos que teríamos que “invadir” fazendas para realizar a caça, isso trouxe certa preocupação, mas essa missão era de retorno impossível, continuamos nossa jornada até nos encontrarmos, de frente, com uma procissão. Havia centenas de pessoas, todos moradores das fazendas da região, segurando velas bem compridas, daquelas que se veem em altares de igrejas, muitas mulheres com seus rostos cobertos por um fino e quase transparente pano branco, muitos feitos de tricô, os homens com seus melhores trajes, os mais importantes seguravam uma espécie de maca suspensa, que sustentava e conduzia uma imagem de santo – não sei dizer qual. Paramos em sentido contrário e começou a primeira disputa da noite, eles não queriam nos deixar passar no meio da procissão, diziam e alguns gritavam que isso seria um desaforo com o santo, tentávamos argumentar e meus doze anos de colégio de padres católicos serviu para convencê-los, de que quando fosse ordenado iria voltar lá e excomungar todos eles. Depois de muita lábia eles aceitaram passar ao nosso lado, desde que não movimentássemos o carro até o último integrante passar.

Topamos.

Aguardamos.

Seguimos.

Logo à frente chegávamos à primeira fazenda a ser invadida, como não poderia ser diferente, um brejão, e como não poderia ser diferente – parte dois, eu pus o pé para fora do carro e tomei um baita escorregão, ensopado e todo cheio de lama, foi assim que iniciei a jornada predatória. Antes de passar pela cerca de madeira nos separamos em grupo, cada um dos cosmopolitas iria acompanhar um caiçara, nossa tarefa, iluminar. Um detalhe é que quando pegamos nossas lanças e colocamos nossos casacos e sacos, eles tiravam os tênis e camiseta e ficavam de short, um rindo do outro, eles acabaram se dando melhor. Saímos à caça. A noite estava bem escura, portanto a única claridade provinha de uma pequena lanterna que havia sido gentilmente fornecida a mim pelo Claudinho, claro que ele carregava um canhão e seu primo, o Hans – que mereceria uma história à parte por ser o cara mais mauricinho que conheço – ganhou outra que portava umas seis pilhas das grandes. Logo paramos e os caiçaras disseram que assim não daria para continuar, estávamos lentos e a feira seria pequena, mudamos as duplas, a mim sobrou o Claudinho com a lanterninha, o fracasso estava desenhado.

As duas duplas estavam longe quando a nossa lanterna começou a falhar, até esse momento nosso inventário de rãs era de contagem zero, na verdade mal olhávamos para baixo, nossa maior preocupação era de não levarmos tombos, afinal nossas botas de montanhismo foram reprovadas depois de encharcadas de lama, parecia que portávamos um par de esquis. Chegamos a um pequeno córrego, bem estreito, porém de certa profundidade, como eu carregava a lanterna, o Claudinho logo disse: - vai à frente e depois ilumina para eu pular, ou seja, eu iria no escuro. Mirei um local que parecia seguro do outro lado da borda e pulei, levantei as mãos por ter parado de pé, faltava o Claudinho, dei dois passos para trás e disse, iluminando o local onde escolhera, pula aqui que é seguro. Juro que sem querer, a lanterna apagou instantes antes de ele pular, quando voltou a funcionar, após dois murros e duas batidas, cadê o cara? Olhei para baixo e o vi entalado quase até o pescoço, submerso naquele córrego que trazia, além de um fio de água, dejetos vegetais e animais, ajudei-o a sair mas ficou quase que insuportável ficar ao lado de tamanho “futum”.

As lanternas já estavam bem distantes quando percebemos que elas já haviam percorrido o circuito e voltado para o jipe, apressamos o passo e fomos ao encontro deles, parecia que o fim estava próximo, ledo engano. Contagem das rãs. Zero. Eles portavam sacos de lixo preto com algumas dezenas em cada um. E agora, vamos? Perguntamos. Claro que não. Responderam. Vamos comer as rãs que caçamos. Entramos no jipe e lá fomos ate um casebre meio que abandonado e no meio do nada, que disseram ser de um colega. No caminho já silenciosamente me perguntava, como ou não como. Ao chegarmos ao casebre feito de ripas de madeira e barro, mal conseguia ficar de pé dentro dele, acho que quem construir o fez de forma personalizada e customizada para ele, certamente um homem um metro e meio de altura, andar lá dentro só de cabeça arriada e bem corcunda.

A sala comportava uma poltrona de um lugar, mais uma cadeira de madeira pregada por um cego, no quarto um colchão de solteiro estendido no chão, na cozinha uma pia dessas que se compra pronta e lojas de construção e o banheiro ficava lá fora, nem fui ver. Assim que entramos um dos caiçaras foi fazer uma panelada de arroz, enquanto os outros dois matavam e limpavam as rãs, nesse interim apareceu um cachorro do Fantasma Zero, era só osso o coitado, ficou nos rodeando e com livre acesso aos cômodos da casa. Aguardamos o preparo na entrada da casa, pelo menos o visual era deslumbrante, o dia já estava querendo nascer, desenhando no horizonte raios azuis claros e alaranjados, que riscavam o céu escuro e de muitas estrelas. Logo gritaram que a bóia estava no ponto, naquele momento já havia esquecido a conversa íntima e pulei em cima da travessa de rãs, já o arroz ninguém conseguiu tirar da panela, alguém colocou ela no chão para alimentar o cachorro com cara de faminto, ele olhou, cheirou e deu as costas, como diriam meus amigos nortistas: “pense numa coisa ruim”.

Já era perto do meio dia quando chegamos em casa. Exaustos, imundos, fedendo e com fome, tomei um banho quente e fui para a cama, claro que depois de um Toddy com pão de forma e requeijão.

Rãs, desse dia em diante, somente dividindo o quarto comigo, e em silêncio, senão...

*Texto em homenagem a um grande amigo e de longa data. Hoje em dia mais companheiro do que nunca. Abraços Robert.*

sábado, 31 de dezembro de 2011

Era Natal...


Acabo de me sentar na poltrona da sala, velha e confortável, ela já possui em sua memória todos os meus relevos. O abajur de arquitetura moderna ilumina modestamente o ambiente totalmente desprovido de qualquer outra fonte de luz. Ao meu lado o copo de Jack, que outrora um grande amigo (Al Pacino) o chamou de John pela sua intimidade, se for assim sou íntimo de ambos. A outra mão segura um barato charuto baiano, provavelmente enrolado numa fria máquina de aço e polias, ai que saudade das quentes coxas cubanas, ainda retorno aos cubanos. Retiro lentamente uma folha dobrada do bolso, ela contém uma lista de acontecimentos da minha vida, tudo que acontece de interessante ou inusitado vai para a lista, certo que o preenchimento das linhas estão cada vez mais raros, não sabia que a idade iria pesar nisso também. Corro os olhos para escolher alguma que possa compartilhar nestes contos, não são todas que já estão liberadas, algumas esperam a corrida da morte, entre o protagonista e quem vos escreve, torçam por mim caso queiram que sejam reveladas.

Esta, além de já estar liberada, não por óbito mas por afastamento social (por sorte de ambos) acredito ser oportuna somente pelo calendário. Era Natal.

Durante os meus quarenta e poucos anos de vida, tradicionalmente passei os Natais em Bauru, com meus parentes próximos e ainda uma família que também chamava de tio, tia e primos, pela proximidade e amizade que vinha da ancestralidade. Noite na casa deles, almoço na casa do meu tio. Sempre chegávamos por voltas das oito da noite, sentávamos à mesa da varanda e iniciávamos o processo de embebedamento e piadas, divididas preferencialmente entre meus primos (o real e o falso) e eu, a partir das nove horas todas eram engraçadas.

Este ano teria uma novidade, a prima falsa havia se casado há um mês, por motivo profissional não pude comparecer à cerimônia e, obviamente, não conhecer os parentes do ex-noivo. Seu marido era um rapaz muito educado e divertido, já estava aprovado para dividir o espaço de tempo no entretenimento familiar. A novidade era que a família do ex-noivo nos acompanharia na ceia natalina, diga-se de passagem, planejada e montada com esmero e capricho pelas tias que muito disputavam os elogios durante o banquete, tanto pelo paladar quanto pela decoração.

À mesa sentados os primos e tios, o relógio já iria badalar as vinte e duas horas e as piadas e histórias estavam eufóricas, a vez era disputada quase que a apunhaladas verbais, nesse momento chegam os pais do ex-noivo, convidados de honra daquele ano alegre, não só pela data que estávamos comemorando, mas também pelo enlace do novo casal. A turma dos “mal-educados” cumprimentaram o velho casal com os levantares de braço e brindes com seus copos meio vazios e melados de tantas idas e vindas, sentaram à ponta oposta da mesa.

Pela ordem dos gritos chegara novamente minha vez de falar, ou melhor, o “show time”, havia guardado para esta hora o melhor, uma das piadas que estavam bombando na capital e certamente seriam o furor do verão caipira...

“O garoto sai com a bela moça que possuía uma estranha deficiência, ela não tinhas nenhuma das duas pernas, mas isso nem se dava a notar, tamanha a beleza, inteligência e meiguice. O garoto logo se apaixonou e, na volta para a casa, a beijou freneticamente. As carícias foram aumento de grau até que ela o empurrou e, ofegante, o convidou para um passeio no bosque ao lado de sua casa, intrigado o rapaz perguntou o motivo, a bela jovem explicou que lá havia uma árvore, onde ele poderia pendura-la e assim, consumar o coito, foi feito. Ao se deitar o rapaz não parava de pensar na idiotice que acabara de fazer, afinal em sua cabeça como ele poderia ter tido tal atitude com uma jovem tão bela e pura, prontamente correu até a casa dela e tocou desesperadamente a campainha. Ao abrir a porta vem a figura do pai da moça, com cara de poucos amigos pelo exagero, mas antes de poder dizer uma palavra foi interrompido pela história do rapaz, que finalizou com um eu caso com sua filha. O pai sorriu, deu dois tapinhas nas costas do garoto e o orientou que fosse para casa, ainda agradecendo a gentileza e finalizando com um: o pior são os filhos da puta que largam ela pendurada na árvore.”

... Ninguém deu um sorriso sequer, um silêncio me fez achar que já estávamos em época do politicamente correto, não estávamos mas achei estranho não terem gostado da piada, como o silêncio reinava emendei outra, a de um jogador manquitola que fazia e acontecia em campo, essa plagiada de um show do velho Chico (o Anysio, vê-se que também somos íntimos). Ao fim das duas piadas minha tia falsa se levantou e gritou, está na mesa, vamos.

Não sei o que achei mais estranho naquele momento, se a ceia sendo servida tão cedo ou se a cena da mãe do ex-noivo pegando sua muleta e saindo da mesa mostrando que não possuía um dos membros inferiores. Nunca mais os ví nos natais.

Feliz 2012. O Autor

Conto dedicado a um grande amigo carioca, Arcanjo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Toda unanimidade é burra!!!???


Essa frase criada (há controvérsias) pelo grande Nelson Rodrigues, faz exatamente uma alusão ao que nós estamos passando neste momento, afinal e oras, se toda unanimidade é burra e se todos concordarem com essa frase, seremos unânimes e burros.

Então a discordância é intrínsica ao ser humano, porém não a todos também, pois burros também seríamos nesse caso, então o que nos resta dessa análise sintaxe é que somos diferentes, e essa diferença tem seu valor e necessidade.

Para terminar vamos tentar praticar a unanimidade inteligente, que é aceitar nossas crenças e a dos outros, aceitar que a minha verdade é a mentira do alheio, saber se desculpar e desdizer o dito, mas, se isso também for unânime.........!!!!!!!!!!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Alma em Duas Rodas


Depois de um longo inverno resolvi escrever sobre um sentimento que me perturba há tempos, sempre que leio algo relacionado ao mundo duas rodas percebo uma separação grande que fazem hoje sobre os indivíduos que as pilotam, atualmente separam motociclistas de motoqueiros, ainda com seus sub-grupos, fazendo distinções que na minha opinião são errôneas, tanto por filosofia quanto por observação. Posto isto tomo a liberdade de expressar a minha opinião e demonstrar a separação que julgo mais realista, contudo isso é somente a opinião pessoal de um cara que adora a vida sobre duas rodas, tanto na sua condução quanto na comunidade que a cerca.

Quebrando regras e paradigmas, tenho em minha mente e alma que podemos separar sim os indivíduos que conduzem uma motocicleta em 3 tipos básicos:

Motociclista
Motoboy
Motoqueiro

E explico essa separação:

Motociclista:

Indivíduo que gosta de liberdade e enxerga a sua motocicleta como uma válvula de escape do mundo cotidiano, ele sabe que vai ter facilidade em conhecer pessoas interessantes, ora ou outra irá viajar para locais legais e na companhia de outros que pensam iguais a ele, mas principalmente, e isso é importante para ele, ganha um brasão que o tira do lugar comum. O interessante dessa “figura” é que seus dias de semana são extremamente tradicionais e ele até sente um certo desconforto em experimentar coisas novas e abusadas. Falando de sua motocicleta, quanto mais limpa, cheia de acessórios estéticos e nova, melhor. Se pudesse colocaria ela no meio da sala como um bibelot, mas seria muito abusado e o conflito com sua esposa não valeria a pena.

Motoboy

Indivíduo que utiliza sua motocicleta como instrumento de trabalho, seja profissional ou simplesmente para evitar as filas e apertos nos transportes públicos. Quando se apresenta um motoclube ou algo similar ele “dá de cara” e torce o nariz, acredita fielmente que são um bando de velhos bobos e cheio de grana que utilizam das motos somente para pegar menininhas. Suas motocicletas geralmente estão sujas, amassadas e se procurar encontra um pedaço de fio amarrando alguma coisa em alguma coisa, o maior exagero que ele pratica com sua moto é fazer um bate e volta até a praia no final de semana, claro que de short e camiseta, e, no corredor dos carros, é óbvio. Quando reunidos as conversas giram em torno dos acidentes sofridos, mostrando suas cicatrizes que eles cultivam como tatuagens de guerra. Se pudesse guardaria sua moto na sua garagem, mas ela fica no vizinho por ter mais espaço.

Motoqueiro

Agora sim, vem a grande discórdia, para mim o motoqueiro é o indivíduo com o verdadeiro espírito em duas rodas, não tirando o mérito dos outros grupos, esse cara respira liberdade, normalmente o hodômetro de sua motocicleta marca mais quilometragens do que de seu carro, por sinal objeto que utiliza por pura obrigação. Ele cuida de sua moto conforme manda o manual, os acessórios que você encontra em sua moto são puramente de segurança, performance ou conforto, nada de papagaios pendurados. Ele é um formador de opinião e seus seguidores são normalmente formados por alguns motoqueiros e vários motociclistas, que o seguem, ouvem seus conselhos e “babam” em suas histórias de viajens e aventuras. Esse indivíduo corta a 66 toda a vez que vai para a estrada, pois ele leva consigo o espírito aventureiro dos primeiros motoqueiros da década de 50 e 60. Dificilmente você o encontrará com sua moto estacionada na frente de um bar ou restaurante dentro de sua cidade, para ligar sua moto tem que rodar pelo menos dois tanques. Para terminar, ele guarda a moto onde ele quiser, e se alguém da família reclamar sabe que será despejado de seu quarto.

Que venham as críticas e comentários, mas faz tempo que vejo a expressão das pessoas torcendo o nariz cada vez que me apresento como um motoqueiro...

domingo, 13 de março de 2011

Anjos na Terra...

Há algum tempo atrás, o pai de um anjo, que não está mais entre nós, disse-nos que gastou muito tempo falando de história sobre vocês, mas, para ser honesto, eu nunca prestei muita atenção. Então, como ele era muito cabeça dura, ele me fez conhecer todos vocês, um por um. Ser abraçado e beijado por vocês, como se fosse o próprio filho; vestindo aquelas roupas de couro , aqueles capacetes coloridos, vocês pareciam realmente durões ....

Mas uma vez que as viseiras fumês eram levantadas, vocês tinham olhos bonitos, limpos e cheios de lágrimas; olhos onde você poderia se perder neles, chegar em suas almas e ver que pura elas são.

Tirando suas roupas de couro, você veria que eles cresceram como crianças, nada mais que isso....

Eles gostam da vida, carnes, cerveja e "tira gosto" e ainda procuram pela mãe, quando as coisas dão errado...

Tem gente que diz que quando montamos em nossas motos, anjos e demônios vão conosco!

Pode ser até verdade, é um tipo de dualismo que faz esse estilo de vida ser tão rico em emoções, que fazem seu coração bater mais rápido, parecendo que vai sair pelo peito a qualquer momento.

Demônios fazem você acelerar, irracionais e violentas aceleradas, na hora que a adrenalina corre direto para seu cérebro e você fica tremendo por vários minutos.

Anjos que carregam com eles a face a as vozes de quem não está mais conosco; vozes da experiência por vezes forjada em ossos quebrados.

Sim é verdade que você pode morrer pilotando uma moto; isso pode acontecer com qualquer um de nós isso machuca, REALMENTE MACHUCA.

Mas nada se compara à quantidade de vida que torna isso em lembranças fantásticas, em "flashes" que duram uma eternidade de risadas, aquelas risadas altas e profundas que vêm do coração, tão altas que fazem o sol brilhar num dia nublado.

Converse com qualquer um de nós, peça-nos para dizer sobre uma história de nossos últimos passeios alguma curva da estrada de sua montanha preferida, e você se perderá naqueles olhos sorridentes, naquele sorriso natural que gradualmente se espalha pelo rosto inteiro.

Converse com qualquer um de nós, pergunte como a vida seria se algum dia tivéssemos de desistir de nossa paixão e, tudo que você irá escutar é o som do silêncio, você verá que aquele rosto sorridente do "garoto" ficará vazio... como um pássaro com a asa quebrada...

E se você não entendeu nada até agora, não se preocupe, você nunca entenderá!

Mas se um dia você estiver na estrada com sua família indo para a praia, na
segurança de seu carro, UM DE NÓS passar vagarosamente pelo seu carro, você verá que seu filho, sentado no banco de trás, de repente virar a cabeça, acenando e cumprimentando empolgado, não tente entender seu filho também.
Seu filho, com toda sua inocência, vê em nós uma centelha de algo que você nunca reparou!
E o motociclista acenará também, não há nada de errado e você sabe que...

Anjos na terra se cumprimentam!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nem Fodendo, Véia


Em época de adolescência a rebeldia se faz presente nos mínimos detalhes, nesse tempo gostava muito de negar e repudiar toda e qualquer solicitação de mamy, apesar de que por vezes essas negações eram fundamentadas, pela idade a resposta que poderia ser um simples “não” fora substituída por um “nem fodendo véia”.

Antes de iniciar essa aventura, preciso contar mais sobre um personagem estreante deste espaço, uma prima de mamy, que conseguia ser mais louca e extravagante que a original, morava em Santos e tinha uma vida perfeita, até que trocou seu marido médico pelo amante boxeador e taxista, nada contra as profissões, mas pudera... Lembro-me do dia em que eu e meu “primo do meio” estávamos visitando-a e fomos convidados a conhecer seu novo amor, ao subir as escadas do pequeno prédio de três andares e sem elevador, demos de cara com o dito socando nossos ombros em sinal de boas vindas, certamente essa prima aparecerá em outros eventos, mas voltemos à história.

O primo morava em casa, veio fazer cursinho e aproveitar um pouco mais da vida longe dos pais, em seu modo aproveitou bem, dormia o dia todo. Certa noite mamy chegou eufórica, havia recebido um telefonema de convite da prima – agora separada e morando em São Paulo – para uma visita em seu apartamento no centro da cidade, já havia ido lá uma vez, local sombrio, escuro, prédio sem porteiro, daqueles que o interfone com a numeração dos apartamentos fica expostos à rua, conhecendo muito bem mamy e sua prima, minha resposta não poderia ser outra - “nem fodendo véia” - contudo meu primo era mais educado e solícito, talvez por achar que morava em casa deveria atender aos pedidos de sua tia, se arrumaram e foram ao centro da cidade. Voltaram depois de horas, já se passava da meia noite e não entendi o porquê meu primo estava ofegante e pálido, entrou no quarto que dividíamos sem dar uma única palavra, após insistentes perguntas ele foi se soltando, tendo a certeza de que havia chego em terreno conhecido e seguro e relatou...

Ao chegar ao apartamento da prima, local exatamente como o descrito acima, ele resolveu que iria esperar no carro, afinal na ida mamy revelou o porquê da visita, a dita prima estaria com um amigo que, após uns goles e tragos, receberia entidades que destrinchavam suas vidas passadas e futuras. Estacionou o carro à frente do prédio e viu mamy adentrando após apertar algum botão e sumir pela porta de ferro e vidro, diz ele que nesse momento que foi reparar com detalhes onde realmente estava, alguns poucos transeuntes passavam pelo local e suas caras sempre o faziam imaginar desfechos assustadores, então resolver sair dali também, pensou que ficando no apartamento da prima estaria mais seguro, acertou, em parte.

A primeira tarefa seria adivinhar qual o número apertar naquele imenso interfone de botões pequenos e iluminados, sem qualquer nome ou indicação teria que ser no chute, sem nenhuma equação matemática foi na sorte, depois de algumas respostas mal criadas uma senhora de voz trêmula e velha indicou o número certo a apertar. A porta se abriu e dava num longo corredor, os elevadores ficavam à esquerda e tinham suas portas com rabiscos e dizeres de fácil identificação mesmo depois de algumas mãos de verniz, aguardou o pequeno, porém barulhento elevador chegar e subiu.

Na chegada ao andar já sentiu certo odor estranho, incenso misturado com charuto, velas e bebida, realmente deve ser explosivo. Com receio, mas sem ter o que fazer, tocou a campainha e aguardou alguns momentos que pareceram uma eternidade, ouviu uma voz conhecida pedindo que aguardasse um instante, o fez. A porta se abriu lentamente, de repente uma “figura” estranha estava entre ele e o apartamento, um senhor de meia idade, seu traje preto da cabeça aos pés ainda eram recobertos por um manto bicolor, por fora preto fosco e por dentro vermelho brilhante, uma barba desleixada e cabelos levemente cumpridos e despenteados, charuto na boa e segurando um copo americano de conteúdo alcoólico. Com a mão em riste e olhar fixo para os olhos do primo ele se apresentou:

- Prazer, Exú Caveira

Conhecendo meu primo tenho certeza que ele preferiria os meliantes desconhecidos ao indivíduo com nome e sobrenome. Relutou mas entrou, quando não se tem opção cometemos atos impensados. Ao primeiro passo recebeu uma borrifada de um desodorante spray, daqueles que ficam mesmo depois de quem o usa partir, e recebeu “ordens” do elemento, toda sua vida estava traçada e nada que fizesse poderia mudar, e assim foi, por horas a fio ouvindo, ora em tom rouco ora em gritos entusiásticos, os conselhos e histórias do autêntico e único representante oficial da marca Exú.

“Eu te disse que era roubada”, foram as palavras que declamei ao ouvir tal relato, agora ele aprendeu mais uma, a educação pode custar caro sem uma avaliação prévia. Já eu, continuei com a certeza absoluta que minha frase de efeito, por mais chocante que poderia parecer, tinha seu mérito e significado. NEM FODENDO VÉIA.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Memória de criança


Por ser filho único de uma família pequena, desde cedo fui praticamente criado com meus primos, eram dois, os mesmos citados na história “proibido para menores de dez anos”, contudo sempre houve certo ciúme originado pelos presentes que eram reservados em épocas natalinas, achava fortemente que meu primo mais velho seria o verdadeiro filho de mamy, tanto pelo carinho quanto pelos presentes ofertados por ela. As lembranças são de tempos diferentes, mas marcadas e sempre lembradas nas histórias familiares, se tornaram ícones sobre a memória infantil, não sei ao certo o porquê guardamos tais passagens, de tantas outras essas se registram e parecem que não quererem partir ao longo dos anos.

Caso Um

Como de praxe assim que acabava o ano letivo eu era colocado em um ônibus em sampa com destino ao interior, onde na chegada meus tios já me esperavam com calorosa recepção, era férias, mamy viria bem perto do natal, passando somente poucos dias, a festa era geral porém durava poucas horas até que os pegas e discussões entre a molecada se iniciasse. Neste ano o calor estava intenso e passávamos o dia à beira da piscina, na verdade dentro dela, lembro de me queimar forte, a ponto de terem que rasgar à tesoura uma camiseta para poderem passar pomada contra queimadura, mas tudo isso fazia parte do contexto, não me abatia, até que chegou o natal, na tarde do dia vinte e quatro mamy chega com o carro forrado de caixas de presentes, como a ansiedade era tamanha, não esperávamos o conhecido ritual do pé da árvore, descarregávamos o carro de olho o cartão que identificava o dono do embrulho e imediatamente achado o papel era rasgado formando uma nuvem de picotes, era nossa neve.

Minha caixa era de tamanho médio, porém demasiadamente pesada para meu pequeno tamanho, isso geralmente trás boas surpresas, apressadamente a abri e realmente foi uma surpresa, uma vitrola somada a dois discos coloridos de histórias infantis, “soldadinho de chumbo” e mais outro qualquer. A intenção deve ter sido das melhores, mas a última coisa que me interessava à época seria uma vitrola, ainda nem sabia quem era “Raulzito”, decepção. O primo do meio foi o segundo a chorar quando recebeu um jogo chamado Petróleo, onde se colocavam moedas dentro de uma chaminé e a certo momento elas se espalhavam pelo chão, num saltitar “pipoquesco”, além de graça alguma ainda se perdia mais tempo recolhendo as tais moedas do chão do que brincando. Chegou a vez do queridinho, caixa também bem grande, de peso maior ainda, ao abrir a cara de espanto de todos seria digna de foto, um autorama...

Caso Dois

A madrinha de meu primo do meio passou para busca-lo e escolher seu presente de natal, como estava eu de “dois de paus” fui junto. Descemos até o calçadão de Bauru, as lojas chamavam os fregueses e a quantidade enorme de pessoas que atrasaram as compras faziam o burburinho do local mais parecer um ataque de abelhas africanas, a passos largos e de mãos dadas para não nos perdermos fomos à loja previamente escolhida pela madrinha, era um verdadeiro oásis de brinquedos e bugigangas, paramos a frente de uma vitrine recheada de carrinhos e ferro da Matchbox que eram o desejo de consumo de qualquer menino, segundos depois veio a palavra mágica da madrinha para o afilhado, escolha uns quatro. Passei a ajudar na decisão, certo que pela circunstância ouviria algo bem mais modesto porém similar, ele acabou pegando um caminhão cegonha, uma moto e dois esportivos, tudo na cesta chegara minha vez, ela se virou e foi em direção ao caixa, fiquei parecendo um poodle olhando fixamente para seus olhos só a espera de um carinho, acho que dei na cara pois a caminho da saída ela pegou uma caixa e passou as minhas mãos, uma moto de plástico de tamanho mediano, toda preta, que não mexia as rodas tampouco virava o guidão, virou brinquedo do cachorro...

Caso Três, a revanche

Tudo bem, eu tinha a Tia Laura. Irmã de vovó, ajudou a me criar e tinha realmente um carinho todo especial por mim, daqueles gratuitos. Lembro que tentei eternizá-la, pois quando estava bem velinha a mamy sempre a visitava e tentava me levar junto sem sucesso, quando retornava da visita sempre dizia que suas últimas palavras eram que ela não morreria sem me ver, parece maldade, mas estava tentando prolongar ao máximo sua coexistência conosco. Alguns anos depois a insistência e brigas eram tantas que resolvi me deixar levar, fui visita-la, morreu.
As lojas da Tilibra eram o Mappin do interior, vendiam de tudo e mais um pouco, certa tarde estávamos brincando em casa quando a Tia Laura aparece e me convida para uma ida à Tilibra, de forma inversa ao Caso Dois, desta vez meu primo me acompanhou de coadjuvante. Passeávamos pelos corredores admirando a diversidade expostas nas prateleiras, apesar do convite ser para tomarmos um lanche sempre “sobrava” algum regalo. Nesse dia parece que o humor e a carteira estavam em alta, pois já na primeira curva ela pegou um saquinho com meia dúzia de bois, cabras, ovelhas e porcos e ofertou ao meu primo, era uma lembrança mas ele aceitou com cara de feliz, andamos mais um pouco, ele segurando o saquinho e eu de mãos vazias, não seria possível, algo estava por vir afinal era a Tia Laura. Passadas a frente e acaba o corredor, as prateleiras ficam para trás e demos de cara no balcão da atendente, meus olhos tilintaram somente ao ouvir o pedido, tem o “Forte Apache”...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Noite fora de Casa


Estava aproximadamente com dez anos, nesta época mamy namorava um iraquiano de nome Ramy, por sinal o mesmo de uma fábrica de privadas da qual um exemplar habitava em casa e me orgulhava de dar largas esguichadas. Contudo o sujeito não era um simples iraquiano, àquela época seu país era um dos grandes exportadores de petróleo e os “petrodólares” os faziam “reis do mundo”, e este era simplesmente o embaixador do Iraque no Brasil. Isso fazia suas viagens serem constantes, além de sua residência oficial ser em Brasília, portanto eram escassas as visitas à mamy em Sampa, contudo naquele dia ele chegou. Ouvi um telefonema de mamy a minha madrinha pedindo que ela ficasse comigo naquela noite, ficava no mesmo prédio, nós morávamos no décimo andar e ela no décimo oitavo, fiz uma trouxa e fui.

O apartamento apesar de ser igual era bem diferente, explico. Com 180 metros quadrados divididos originalmente em sala, cozinha, área de serviço comprida e estreita, dependências de empregada e três quartos. Após a grande reforma a cozinha e um quarto se agregaram à sala, que ficou bem grande e ocupando quase que metade da metragem total, uma parte da área de serviço foi dividida e deu lugar a uma pequena cozinha, ditando que dali quase nada sairia, o quarto de empregada virou um escritório agregado à suíte e o banheirinho deu lugar a uma despensa, todas essas modificações fizeram do imóvel a cara da dona, leve, prática e simples. Com poucos móveis, um colchão de solteiro de poucos milímetros foi jogado no meio da grande sala e ali estava definido o local de minha acolhida.

Após uma leve refeição e um pouco de papo, a “dinha” e sua filha anunciaram o toque de recolher, ambas foram para seus respectivos quartos enquanto eu me ajeitava no colchão, as luzes se apagaram e iniciou o meu martírio. Passados os minutos de movimento e barulho na casa, esta se silenciou por completo, o novo formato da sala fazia com que houvesse janelas em ambas as faces, sendo inevitável uma corrente de vento que fazia balançar os grandes vasos com samambaias de metro e um cadeirão, parecido com um orelhão de rua, feito em vime e preso ao teto por umas correntes, que também rangiam e se embrenhavam a cada volta da cadeira de balanço. O medo começou a tomar conta de mim, levantei e fui até o som três em um da Sharp e liguei o rádio, assim imaginei abafar os estranhos sons e ainda iluminava um pouco o ambiente. Minha idéia durou muito pouco, segundos depois adentra na sala a filha da “dinha” solicitando de maneira gentil e seca que o aparelho fosse desligado, pois só dormia no silêncio total. Só a sua entrada na sala já fez meu coração, que àquele instante já morava na garganta, fosse seguro pelos dentes, ela era bem magra, alta e com poucos glóbulos vermelhos, era quase uma mistura de boneco de neve com noiva cadáver.

Voltamos à estaca zero, penumbra, silencio e solidão, acompanhada de um local desconhecido, onde parece que seus olhos te levam a ver coisas inimagináveis e objetos inanimados ganham vida e forma. Neste momento aprendi mais uma lição, como o silêncio pode ser tão barulhento. Virava de um lado para o outro, sempre me protegendo com a coberta cedida, não sei ao certo quanto tempo passou, as luzes dos carros passando pela janela já haviam ficado espaçadas. Resolvi ser herói novamente, me levantei pé-ante-pé, fui até à porta de saída e a destranquei como se estivesse diante de um cofre bem guardado, encostei a porta somente no trinco e já estava no hall dos elevadores. Haviam dois, separados pela escada que somente descia pois estávamos no último andar, achei que utilizá-la seria uma péssima idéia então apertei o botão de chamada e aguardei, dava para ouvir as suas portas se fecharem e suas máquinas o fazendo subir os longos e demorados dezoito andares.

Não tirava os olhos da escada, o medo estava quase que se transformando em terror, entrei e apertei o décimo andar. Dentro daquele cubículo só pensava no tempo que demoraria entre sua parada, a abertura da porta, eu conseguir acender a luz e correr até abrir e fechar a porta, com tudo detalhadamente cronometrado na cabeça o elevador aporta no andar. Assim que a porta se abriu saí igual a um foguete, sem olhar para trás, em passos largos somente fui parado pela porta de casa, com a chave na mão destranquei a dita cuja e fiz força para abri-la, nada, tentei novamente e nada, mamy havia passado o famoso ferrolho na porta, talvez por hábito, talvez imaginando minha atitude, tentei tocar a campainha algumas vezes sem sinal de movimento interno, pronto, o caminho de retorno seria inevitável, me virei e fiz o sentido inverso.

Após deitar novamente em meu colchonete e me cobrir até os olhos, comecei a soluçar e a ensaiar um choro, estava com medo e estava triste, triste por estar com medo e por perceber que eu não era tão corajoso como imaginava tampouco quanto imaginavam de mim, essa foi uma de minhas primeiras decepções.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Viagem de Sampa a Foz, de motoka


O relato, pelo ponto de vista da City Azulona Pfizer:

As 4:45 hs de quinta já estava abastecida e aguardando meu dono e seus amigos tomarem café da manhã no posto Graal da Castelo Branco, acabaram se atrasando um pouco e fui ligada as 6:20, destino, a terra do nunca.....

Ainda escuro e com uma chova moderada entramos na estrada reta, larga e bem sinalizada, formação feita e seguimos. Apesar da pouca visibilidade, afinal não tenho as bolhas que as minhas colegas de viagem possuem, íamos bem. Primeira parada no Rodoserv, um "stop and go" para abastecimento. O dia já se fazia claro neste momento.

A tocada foi essa até chegarmos em Maringá, onde a estrada se mostra mais desconfortável, pois vira mão dupla e com excesso de caminhões, neste momento sabia que estava deixando meu dono chateado por não poder acompanhar as motos preparadas para grandes viagens, a cada passagem de um caminhão ou ônibus vindo em sentido contrário eu tentava me manter estável, mas era como se permitisse que o piloto tomasse um tapa no peito, devido ao deslocamento de ar e água, neste momento a chuva de moderada passou a intensa. A roupa "impermeável" se mostrou frágil diante da fúria da natureza e permitiu a entrada da água por todos os pontos - ressalva à luva, comprada na General Osório por 140 pratas, que aguentou firme, sem deixar a água entrar, contudo a sensação de congelamento dos dedos era real.

Minha baixa autonomia fazia com que todos tivessem que parar a cada 170 kms, isso atrasou a viagem mais um pouco. A medida que o tempo passava o frio aumentava demasiadamente, fazendo que a cada parada a preocupação em se aquecer aumentasse, paramos para almoçar perto dos 600 kms percorridos. Alí percebi que meu dono estava cansando, preocupada com isso fiz o meu melhor, tentei me superar, em nenhum momento podia falhar, nenhuma engasgada, nenhuma dificuldade em ligar, nenhuma marcha sem entrar, tinha que ajudar a quem me trata bem e me ama.

Já era perto das 17 horas quando paramos numa cidadezinha e o grupo se separou, o Magoo e o Vicente seguiram para Toledo e o resto seguiu - mais devagar por minha causa - em direção ao destino final. Ouvia os pensamentos do meu dono, sempre dizendo que precisaria continuar, que estava com seus amigos e não poderia atrapalhá-los ainda mais, seguimos.

Com o cair do dia o frio se mostrou um inimigo cruel, daqueles que não querem matar, apenas torturar. Paramos no posto e meu dono disse que precisaria de um tempo para descansar um pouco e se enxugar/aquecer, depois de 3 copos de café com leite e uns 20 minutos parados, seguimos, estávamos a 300 kms de Foz, vamos ver no que vai dar.

O combustivel já estava no final, a próxima parada estava próxima, mas meu piloto e amigo não aguentou mais, ele abriu o bico, na parada ele informou que não conseguiria continuar, neste ponto já era noite e o frio estava castigando muito, aliado a quase nada de visibilidade - no meu caso tanto para frente quanto para tras, pois meus espelhos estavam encobertos pela massa do piloto mais a capa de chuva que batia em seu braço, tornando impossível ver o que se passava atrás - o termometro marcava 3 graus, contudo a sensação térmica em cima da moto era de menos 15 graus, e os rapazes do posto informaram que a 500 metros havia um belo hotel, como "companheiro é companheiro" e a amizade neste grupo é mais importante que qualquer ponto, todos resolveram ficar e fazer companhia, entramos no estacionamento e me posicionei ao lado das enormes bravas. dormimos.

Nesta mesma noite houve mais um imprevisto, o Magoo e o Vicente se perderam na estrada e trouxeram preocupação extra, indo o Magoo parar no hotel em foz, viajando e dormindo sozinho e o Vicente, que não sabia o endereço, foi dormir num pulgueiro onde achou vaga.

As 10 da manhã estavamos chegando em Foz, encontramos nossos amigos e todos foram as compras no Paraguai. Sabado pela manhã foi a vez de irem até a Argentina e logo foram nos buscar para continuarmos a jornada. As 15 horas estavamos na estrada novamente, agora com o propósito de uma parada planejada. O início da viagem mostrou que a tortura seria a mesma, mas as rezas de quem foi e de quem ficou adiantaram muito, após umas 2 horas o tempo firmou, a chuva parou e a temperatura aumentou, agora sim podia sentir a feição de felicidade de meu dono, cortava feliz as curvas da região, sempre colado e no mesmo ritmo dos amigos, percebi até que sua auto estima havia sido recuperada, pois exigia com vontade de minha cavalaria. As 22 horas chegamos em Londrina, onde escolheram pernoitar, na verdade - tirando o excesso de roupa - dava para continuar a motokada noturna - deliciosa.

Na manhã de domingo pegamos o último trecho, agora valtavam somente mais 600 kms para chegar em casa, na verdade faltou mais uma coisa, a cia de um dos amigos que teve que sair mais cedo, o Vicente nos deixou.

A estrada que pegamos era linda, cheia de curvas e com asfalto bom, pouco transito e paisagem agradável, logo entramos na Castelo Branco, onde rasgávamos a 160 a grande reta que se perdia de vista, outra vez a motokada foi deliciosa, nas paradas ficava claro que os donos de minhas colegas estavam felizes. Cheguei em casa as 18:30, sem uma gota de chuva. Na garagem fiquei um pouco mais apresentável, pois meu dono tirou aqueles dois enormes sacos de lixo de minhas costas (maloca, conforme ouvi o Celso me chamar) e fui descançar com a certeza de mais uma função cumprida. Fazer meu dono feliz.

Pena que iguais a mim não serão mais montadas pela fábrica que fechou, existirá uma geração de motociclistas que possivelmente nunca saberão de minha existência, mas só tenho uma coisa a falar. Azar deles.

Os Companheiros

Magoo - Triumph Tiger 1050 - que não gosta de gasosa ruim
Celso - BMW GS 1200 - chique no urtimu
Adamo - BMW K 1300 - sonho de consumo
Vicente - BMW GS 1200 - estreiante
Marcel - Buell Ulysses 1200 - novíssima com kit extra confort
Luiz Uri (meu dono) - Buell Citycross 1000 - eu mesma, a azulona pfizer

A kilometragem

Quinta - 900 kms
Sexta - 200 Kms
Sábado - 500 Kms
Domngo - 600 Kms
Total - 2.200 kms

Os Números da viagem

Distância percorrida: 2.178 kms
Tempo (moto ligada/rodando): 23:50 hs
Velocidade máxima: 195km/h
Consumo médio: 7.7 litros p/ 100kms = 12.98 km/L
Consumo total: 167,80 litros de combustivel
Gasto aproximado de combustivel: R$ 436,50
Hospedagem e alimentação: +- R$ 550,00
Pedágio: +- R$ 70,00
Total (sem compras): R$ 1.056,50

Relato do Piltoto:

Meu dono agora esta gritando comigo dizendo que quer falar também, mas como o relato é meu, apenas vou repetir o que ele tem a dizer:

"Quero agradecer imensamente aos bravos "Bulleiros" de coração, essa amizade transcende qualquer entendimento mortal, vocês me escoltaram com paciência e sabedoria, me levaram e me trouxeram. Devo esta experiência magnífica a vocês, e quando precisar é só chamar. Ah!!! se tiver sol pode me chamar que EU VOU......."

Assinado:
City Azulona Pfizer *



* Buell Citycross 1000 cilindradas, ano 2008, azul translúcido, equipada com Comando eletrônico TFI e com filtro de competição K&N, 105 cavalos não originais, com 22 meses de vida e 22 mil kilometros rodados. SEM BOLHA e SEM CARENAGEM.

Fonte inspiradora a esta publicação:
Cel. Arcanjo . BuellBR . Facção Coxinhas Bronzeados

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"Duplo" acidente


Na faixa entre os 11 e 14 anos tinha uma vida muito ativa e agitada, toda tarde descia até o PG (playground) do prédio, onde me juntava aos outros 13 amigos e vizinhos e iniciávamos nossas brincadeiras diárias, variava entre jogar futebol ou vôlei, pega-pega ou polícia e ladrão, bicicleta ou carinho de rolimã, o importante era não ficar parado. Claro que “virava e mexia” eu me contundia, até porque o peso extra que carregava na região abdominal favorecia as lesões, portanto era normal eu voltar para casa com roxos ou distensões. Esse dia não fugiu desta normalidade, e voltei reclamando da dor lancinante que sentia no tornozelo esquerdo. Por outra coincidência da vida, justo nesse dia mamy chegara em casa depois de sua labuta diária contando que havia torcido o pé direito, em seu retorno para casa, mostrando-o inchado e também reclamando de dor, resultado, ambos em direção ao Hospital do Servidor Público de São Paulo, localizado no Ibirapuera, atende aos funcionários públicos do Estado, e como toda autarquia pública, tem lá suas limitações.

Ao chegar ao balcão, ficou notória a expressão de curiosidade da atendente quando explicamos que ambos, mãe e filho, estavam machucados e gostariam de passar pela ortopedia, solicitação atendida nos dirigimos à sala de espera do médico. A chamada era por nome, as tão habituais senhas eletrônicas de hoje não existiam à época, ao chamar pelo nome da mãe entramos ambos. O médico com nossas fichas logo perguntou o que havia acontecido, contamos nossas histórias distintas e ainda rimos sobre a simultaneidade das lesões, fomos imediatamente encaminhados ao Raio X. Primeiro o filho, depois a mãe, chapas tiradas aguardamos a revelação, logo o técnico apareceu com os dois grandes envelopes na mão e os entregou à mamy, voltamos ambos mancando ao consultório médico. O doutor foi enfático, o pé do filho está com o osso trincado e deveria ser engessado por 40 dias, já o da mãe seria apenas uma luxação que deveria ser tratado a base de medição. Ordens aceitas e nos dirigimos à sala de gesso, onde sentei numa maca de alumínio e aguardei pacientemente todo o processo de molde da bota engessada, enquanto isso fazíamos planos de como seria nossa rotina nos dias em que deveria permanecer sem colocar o pé no chão. Serviço pronto, me colocaram em uma cadeira de rodas e a própria mamy a empurrou, ainda com dificuldade, pelos corredores do hospital até o estacionamento, onde me ajudou a entrar no carro e nos levou para casa.

Mamy resolveu trocar de quarto para dar-me maior conforto, eu ficaria com a cama de casal enquanto ela iria para meu quarto, isso durante o longo e doloroso período até minha recuperação. Acomodado em meu novo aposento chegou a janta, trazida em uma bandeja, realmente o conforto e tratamento era especial e maior do que já tinha habitualmente. Mamy se juntou a mim para assistirmos TV, preocupada comigo não deixava um intervalo sem perguntar como me sentia, sempre que dizia que estava bem ela reclamava da dor em seu pé, mostrando o inchado e comentando que seria difícil ir trabalhar no dia seguinte, mas tinha compromissos inadiáveis e resolveu que iria de taxi. Quando acordei mamy já não estava mais em casa, contudo deixou a mesa do café pronta e um bilhete sobre cuidados e melhoras. Foi um dia bacana, logo após o horário do almoço recebi várias visitas, amigos e amigas assinaram o gesso e me tratavam como um rei, era só pedir e num passe de mágica meus desejos eram atendidos.

A porta se abriu mais cedo do que o normal, mamy voltara antes para casa, chegou no quarto e comentou que não agüentava de dor, que o sapato a estava “matando” e por isso resolvera vir descansar e colocar o pé para cima. Quando me mostrou o “bicho” tava feio mesmo, além do inchaço do dia anterior, que ainda estava maior, a cor era tenebrosa, o roxo escuro tomava conta desde as pontas dos dedos até o tornozelo. Realmente uma imagem assustadora, disse a ela que deveríamos voltar ao hospital, ela inicialmente recusou e argumentou que havíamos acabado de voltar de lá, mas insisti e acredito que o incomodo era grande, pois aceitou e lá fomos nós ao “Servidor”. Quando entramos na sala do médico, com as chapas tiradas no dia anterior, ele as viu e disse que estava certo, o pé do filho com uma trinca e o da mãe sem nada, contudo vendo o estado do pé ao vivo, também achou estranho e mandou tirarmos novas chapas, ambos.

A desilusão foi clara e imediata, minha vida de rei mal começou e já fora interrompida. As chapas haviam sido trocadas e quem estava com o pé quebrado era a mamy, quando tiraram o meu gesso sai pulando sem qualquer restrição, mamy não sabia se berrava com os funcionários do hospital ou se ria, em muitas vezes esses sons se misturavam e ficavam irreconhecíveis, desculpas pedidas e não aceitas, fomos para casa. Quartos destrocados e a bandeja montada, agora eu servindo o jantar na cama. O espanto foi grande quando, após o horário do almoço, meus amigos chegaram em casa para me fazer companhia e se depararam com o novo cenário, risadas e o gesso da mamy todo assinado.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Viagem de Fusca


Estava com 14 anos quando meu primo mais velho, recém formado, arrumara um emprego na capital e veio morar conosco, chegava a ser irritante a “puxachão” de saco de mamy, ela estava irradiante com os seus “dois filhos” em casa. Perdi minhas regalias, mas ganhei um irmão, coisa que nunca havia tido. Agora podia trocar experiências e fazer perguntas dantes somente respondidas na rua. Tenho que revelar que foi uma boa época, apesar da divisão.

Com ele veio um Fusca, cinza, velho, onde seu maior atrativo era um alto falante de 16polegadas, único, que reinava na tampa traseira e fazia a velha carcaça tremer a cada batida grave emitida pelo Pionner prateado estampado no simples painel. Nessa época minhas idas à Bauru se intensificaram, de duas a três idas anuais passei a visitar minha terra natal a cada quinze dias, a facilidade da carona era notória. Contudo todo bônus tem seu ônus, o fusca não chegava à Bauru com um tanque de gasosa, e àquela época, os postos, por determinação de lei fechavam à noite, o que restava era carregar um galão de 15 litros de gasolina no banco traseiro, quando não dividia o pequeno piso com nossos pés, em viagens com maior quórum.

As longas viagens eram demoradas, o que fazemos hoje em duas horas e pouco, de fusca levava quatro a cinco, contando com a parada obrigatória para encher o tanque com a mangueira que sempre deixava gosto amargo na boca. As voltas eram piores, afinal era sempre domingo e o pensamento de início de semana fazia os ponteiros andarem com grande vagarosidade. Isso trouxe um hobby, sempre contava quantas faixas intermitentes da estrada passavam, contava de um até quanto agüentasse, normalmente chegava a cem. Isso cansava e me fez dormir na primeira e talvez na segunda volta, na terceira até isso me chateava, meu espírito ansioso se fartou de tanto marasmo, comecei assim a contar de forma diferente.

Passava uma faixa, contava um. Passava mais duas até contar dois, quando passavam três faixas contava três, e assim sucessivamente. Isso trouxe uma atenção diferente, pois além de demorar muito mais para chegar a um número final maior, obrigava a um maior controle, fazendo o tempo passar rápido. Porém logo chegara a inquietação, quantas faixas haviam passado quando cheguei a contar cinqüenta. Comecei os testes e mais testes. As luzes de São Paulo já se faziam presentes quando finalmente cheguei a uma equação. Bastava elevar ao quadrado o número final, dividir por dois e subtrair o resultado por metade do número inicial, bingo, o resultado aparecia rapida e surpreendentemente. Para os matemáticos e engenheiros (((x^2)/2)+1/2x) numa conta até dez: 10 ao quadrado = 100 / 2 = 50 + meio 10 = 55. Pronto, a minha nova brincadeira havia nascido, por mais algumas viagens eu ganharia do relógio e do tédio.

Estava na oitava série, e não tenho idéia do que isso se transformou hoje, mas, por coincidências da vida era aula de matemática, a professora, uma japonesa de pouca estatura e minúsculo sorriso entrou na sala, ordenou que os livros e cadernos fossem fechados e lançou o desafio. Se contarmos 1 + 2 + 3 + 4 .... até 50, quantos números unitários e somados teríamos. Imediatamente a memória das noites de domingo vieram à tona e identifiquei uma possibilidade de usar o descoberto. 50x50=2500/2=1250+25=1275. Gritei a resposta lá do fundo da sala, onde reinava solene. Imediatamente a ilustríssima professora gritou comigo, dizendo que havia sido clara na ordem sobre o livro fechado, oras, ele mal havia sido aberto durante todo o ano letivo, àquela ordem para mim ecoou como um alívio. Retruquei sem sucesso. Em seguida outro desafio, agora olhando fixamente para mim – E se fosse até mil? Oras, 1000x1000=1.000.000/2=500.000+500=500.500. Fui chamado à lousa.

Nunca o trajeto entre a última cadeira e a lousa fora tão grande e demorado, os olhares de toda a classe eram fichinha perto da indignação da professora, afinal de contas como o pior dos piores alunos poderia responder às perguntas sem qualquer tipo de trapaça. Ao chegar à frente fui sabatinado novamente, faça com 200, faça com 500. Depois de duas respostas corretas, apesar de certo tempo de raciocínio “exponenciado” pela pressão, ela questionou o porquê eu havia decorado a fórmula da Progressão Aritmética, pois bem, depois do xingamento recebido eu contei toda a história, da coincidência de raciocínio e que nunca havia ouvido falar na tal da fórmula sei lá do que. Desenhei na lousa a “minha” fórmula.

Como a maioria das professoras, ela me proibiu de usar a tal fórmula nas provas e disse, em alto e bom tom, que essa sorte não podia ser avaliada como competência. Que todos ali esquecessem essa passagem e que eu deveria me esforçar mais para aprender a literatura tradicional ao invés de buscar coisas novas.

Sorte minha que nunca esqueci, nem da história tampouco da lição “aprendida”. Que pena de nossas crianças.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Proibido para menores de dez anos...


Nunca entendi a proibição para menores de dez anos, oras, ou pode criança, ou não. O que muda no comportamento entre os oito e onze anos, no meu ponto de vista, nada, como diz um velho amigo, é a idade do armário, tranca com cinco e solta com quinze. Lembro que fui assistir “Tubarão” e “King Kong”, com medo de ser pego pelo lanterninha ou pelo bilheteiro, pois era somente para MAIORES de DEZ anos, chatice.

Estava com sete anos e meus primos de Bauru vieram me visitar, era dois, o mais novo com dois anos a mais que eu, o mais velho “já” com a maioridade primária, doze. Sábado à tarde fomos passear no Ibirapuera e almoçar sei lá onde, voltamos já anoitecendo, quando mamy fez a proposta indecente, ela iria com o mais velho ao teatro e depois buscaria os restantes para a janta, resmunguei um absurdo, mas de nada adiantou, seria impossível ir de encontro com o destino, a preferência de mamy pelo sobrinho querido e primogênito era clara e escancarada (digna de história própria, a ser contata em breve). Restara-nos, a mim e seu irmão, acatar tal decisão e nos renegar à espera. Aprontaram-se e na saída mamy foi enfática: estejam prontos tal hora, que passarei para buscá-los, ordens dadas, saíram para a diversão.

Olhamos um para o outro, na TV nada que prendesse a atenção, resolvemos brincar. Carrinhos de ferro espalhados pelo chão, durou pouco tempo, a monotonia era catalisada pela raiva de termos sido deixados de lado. Na dispensa tinha um volante de carro, sei lá porque aquilo estava lá, sempre esteve, boa pergunta, enfim lembrei dele e resolvemos brincar de motorista versus milionário, onde a cada período as posições se trocavam e quem servia passava a ser servido. O itinerário era sempre o mesmo, sofá arrumado em formato de limusine, motorista “abria” a porta e levava o milionário, que sempre estava acompanhado de uma belíssima mulher, ao restaurante chique. Volante preso a um cabo de vassoura e “vrum”. Chegando ao restaurante - por passe de mágica - o motorista virava garçom e servia guloseimas retiradas da geladeira e dispensa. Primeira rodada, o guaraná servido em copo de uísque, o pote de amendoim e balas. Segunda rodada, já sem guaraná, fizemos uma jarra de suco de uva, daqueles de saquinho em pó. Terceira rodada, acabara o suco, mas tinha uma garrafa recém aberta de vinho do porto, o famoso Ramos Pinto, resolvemos utilizá-lo, sem sombra de dúvidas chegamos mais perto da realidade. Quarta rodada. Quinta rodada. Sexta rodada. Sétima rodada. Oitava rodada. Na verdade a garrafa acabou na quarta rodada, mas da forma que o mundo girava...

O espanto foi nítido quando mamy abre a porta e depara com o filho e sobrinho “desmaiados” no sofá da sala, rindo de tudo e de todos, no banheiro, vestígios claros de todas as idas virtuais aos “melhores restaurantes da cidade”. Fomos levados direto para debaixo do chuveiro, de roupa e tudo a água gelada escorria pelo corpo e congelada a alma, a risada deu lugar rapidamente a uma dor de cabeça insuportável, o gosto na boca relembrava a todo instante a burrice que praticamos, além de todos esses efeitos colaterais, ainda tivemos que ficar ouvindo, de forma insistente e repetitiva, o primogênito berrar em nossos ouvidos sobre a noite perfeita que estragamos. Oras primo, noite perfeita para você, não. Mamy e seu querido sobrinho vasculharam os armários a procura de restos mortais e migalhas, esse foi o seu jantar, fomos todos dormir, no nosso caso, de forma rápida e pesada.

Acordamos daquele jeito, a feição de poucos amigos do primo mais velho já se fazia notar no café da manhã de domingo. Após longo silêncio perguntamos como tinha sido a peça de teatro, ele, empolgado e querendo se mostrar, contava detalhes que certamente nem ele havia notado, terminada a longa e chata explanação veio a reclamação. Imediatamente olhei para o outro primo e, cortando, começamos a contar sobre os lugares maravilhosos que havíamos visitado, os sabores e temperos que experimentamos, o melhor elixir saboreado e todas as mulheres interessantes que conhecemos.

Nossa primeira bebedeira e nossa imaginação ganharam de longe daquela peça boba para criança maior de DEZ anos .....

terça-feira, 13 de abril de 2010

Kombi Escolar


Hoje eu entendo claramente que os dois empregos de mamy faziam sua conta bancária alternar, hora com sobra, ora com comedimento. O Holerite emitido pelo Estado pagava as contas básicas, os honorários do escritório de advocacia traziam os supérfluos, que flutuavam de maior e menor tamanho. Eu estava com sete anos e os dez quarteirões que separavam a minha casa do colégio era meu martírio diário. Andava solitário a primeira metade da caminhada, após isso me encontrava com um amigo e percorríamos o restante do percurso juntos. Já a volta era totalmente solitária. Mamy então, em época de fartura, decidiu contratar o transporte escolar. Fim das caminhadas, mais tempo na cama, início da engorda.

Acertado os detalhes, a Kombi branca com faixas amarelas estava na porta do prédio no horário combinado, apesar de ser um dos que morava mais próximo do colégio, pelo itinerário do ”tio” da perua, era um dos primeiros a serem pegos e o último a ser devolvido, claro que nada poderia ser tão simples assim. Foi uma época bacana, acabei fazendo amigos que não conhecia, a “festa” começava cedo, logo no agrupamento de duas ou três crianças.

Independente da bagunça, chegava no colégio mais disposto, era sem dúvida, um conforto extra. Contudo a volta era um pouco chata, todos cansados faziam as brincadeiras serem comedidas e, como disse antes, era o último a descer, o que fazia percorrer um longo caminho sozinho dentro da Kombi. Falando nela, seus bancos de plástico preto, com furinhos antiderrapantes, sem encosto de cabeça, os vidros eram pequenos e suas minúsculas aberturas eram o único meio de refrescamento. A porta que dava acesso a parte traseira, bólido aonde iam as crianças, era dividida em duas folhas, com todas as ferragens à mostra, expondo o mecanismo de fechamento e trava da porta. O “tio” era o motorista, a “tia” ia sentada ao lado dele, responsável por abrir e fechar a porta e manter um nível de atividade tolerável dentro da perua.

Sempre fui muito curioso, não tinha botão que não gostasse de apertar e gaveta que não gostasse de abrir, e sempre o fazia de forma muito sorrateira, lembro que brincava de mexer nas coisas sem deixar ninguém ver ou perceber posteriormente. Aquelas ferragens na porta da Kombi sempre chamaram minha atenção, era uma maçaneta branca e curvada, que para a direita abria a porta e para a esquerda a trancava, esse movimento fazia subir ou abaixar as barras de ferro expostas. Nenhuma criança podia mexer na maçaneta, a “tia”, a cada parada, descia e fazia às vezes no comando da parafernália metálica. Chegamos ao destino do penúltimo garoto, naquele dia em particular, não parava de pensar em como eu poderia mexer naquela porta, era minha maior ambição do momento. Mal o “tio” parou a Kombi e eu pulei em direção à porta e girei para a direita a maçaneta, instantaneamente as duas faces da porta se abriram e o garoto desceu, a “tia” mal tinha aberto sua porta e me olhou com certo ar de reprovação, não liguei e também não dei tempo de resposta, desci com um pé, puxei as portas e girei a maçaneta para a esquerda, portas fechadas e travadas. Lembro da cara de riso pequeno do “tio”, acredito que já imaginando numa forma de economizar o salário da comandante da porta, engatou a primeira marcha e saímos, ainda tínhamos muitos quarteirões até me deixar em casa.

Entramos na rua da fábrica da Antarctica, era horário de almoço e muitos operários estavam sentados ao longo do cumprido muro, tomando sol e conversando sobre a vida, a rua era de paralelepípedo e a Kombi chacoalhava muito, parecendo sair do eixo. Um solavanco, dois solavancos, no terceiro a porta não agüentou e se abriu, eu que estava encostado nela fui arremessado para fora da Kombi e rolei quicando nas pedras da rua, por incrível que pareça o motorista, nem sua majestosa ajudante, perceberam que eu não ocupava mais o meu lugar, seguiram. Os operários da fábrica correram e se dividiram, metade veio me socorrer e outros tantos foram atrás da Kombi, logo no primeiro semáforo avisaram do ocorrido.

Meu uniforme era uma camisa de manga curta, de tecido branco e fino, quando me levantaram ela estava rasgada e esgarçada, o branco de misturava com o vermelho oriundo de vários arranhões e cortes, logo que a Kombi voltou o motorista foi quase linchado, salvo por estar na companhia da jovem mulher e de uma criança, me colocaram na Kombi e fomos embora. No caminho o “tio” se perguntava o que havia ocorrido, prontamente a “tia” não se fez de rogada - culpa dele, que não soube fechar a porta direito. Muito provavelmente ela estava certíssima, mas era somente silêncio que “ouviam” de mim. Cheguei em casa e fui direto para o chuveiro, passei Mertiolate nos arranhões e fui deitar, nada a fazer. Quando mamy chega à noite, me vê todo machucado e o uniforme naquele estado, contei a versão oficial, que eu queria mexer na fechadura e não soube, isso pouco importou a ela, no dia seguinte estávamos os dois à porta do Diretor, show e escândalo.

As feridas se cicatrizaram rapidamente, o pior de tudo, voltei a andar os dez quarteirões a pé.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Gol 1982 azul calcinha . história 1


Com dezesseis anos tinha um carro à disposição, era um gol com uns 4 anos de vida, azul claro, motor refrigerado a ar, uma verdadeira carroça pela concepção do presidente Collor. Não entendam como uma reclamação, o possante me acompanhava - às vezes carregava - a todas as baladas da época. Era um herói, já havia sofrido muito na mão deste amador, um dos seus pára-lamas era pintado em um azul mais claro ainda, depois de uma batida nunca acertaram a cor exata, ficou.

Certo sábado à noite convidei uma amiga de colégio para uma volta, antes disso, conversei com os amigos do prédio e combinei que voltaria a tempo de terminarmos a noite em alguma balada, horários marcados com ambos, saí a busca da garota. Por volta das nove estava na frente do prédio dela, assim que entrou começamos a longa decisão de onde ir, acabamos aportando no “Speak Easy”, um boteco legal nos jardins, que tinha como principais atrativos uma mesa de sinuca e uma pista de dardos, sentamos e conversamos. O papo estava gostoso, contudo os ponteiros se adiantavam rapidamente e apontavam para o horário do segundo encontro, dei a velha e boa desculpa de cansaço e fomos em direção à sua casa. Estávamos na Alameda Santos, paralela à Paulista na região dos Jardins, quando surgiu o assunto sobre preferência nos cruzamentos, logo dei uma de entendido e me pus a dissertar sobre o assunto. Em um cruzamento simples, quem vem da direita tem a preferência de passagem, salvo cruzamentos com farol ou com placas de sinalização específica. Passamos pelo primeiro cruzamento, estávamos à direita, passei direto. Segundo cruzamento, esquerda, parei. Outro à esquerda, parei novamente, e mostrava o comportamento dos outros veículos. Chegara mais um onde estaria à direita, acelerei, olhei para o lado do passageiro, reforcei a regra e BUM.

Um opala sinistro, conduzido por quatro indivíduos igualmente sinistros e analfabetos em legislação de trânsito, passou a toda pelo dito cruzamento. O impacto foi tamanho que jogou meu pobre Golzinho em cima da calçada, fazendo abalroar um Santana que ali estava estacionado e ainda derrubar um poste de sinalização. Olhei para o lado e percebi que, apesar da força da batida e da não obrigatoriedade de usar cintos de segurança, minha companheira nada havia sofrido. Desci pulando pela janela, saltando por cima do Santana e chegando à rua, fui ao encontro dos ocupantes do opalão, eles ainda estavam atordoados, um pouco pela batida e muito pela condição alcoólica antes da batida. Logo o dono do Santana, que bebia nos bares da esquina, chegou e, desolado, via seu carro em cima da calçada, semi destruído. Chamei todos num canto e comecei o discurso. A culpa teria que ser minha, pois eu não tinha carta, contudo se isso aparecesse nos laudos policiais, eu não iria pagar ninguém, então eu chamaria mamy, que assumiria a direção e culpa, aí acionaríamos o seguro e tudo certo. Acordo feito, fui ao orelhão.

Devia ser uma hora da manhã passada quando o telefone de casa toca, mamy atende desorientada, contudo na certeza de maus agouros, prontamente foi ao encontro do pupilo. Pegou um taxi e em poucos minutos estava chegou ao fatídico cruzamento, como a pressa fora imensa, até porque ela teria que chegar antes da polícia, ela apareceu de penhoar e “bob” no cabelo, uma formosidade. Meus amigos que já me esperavam no prédio, viram-na saindo apressada, logo deduziram que alguma tragédia acontecera e correram através do provável caminho que eu teria feito, chegaram minutos após a mamy. A polícia foi a última, como de praxe.

Com o fuzuê armado, os guardas tentavam entender o porquê da minha mãe querer insistentemente assumir a culpa, sendo que ela estava na preferencial quando o opalão cruzou – viu, eu estava certo – mas não teve jeito, mamy dizia que ela se distraíra e que a culpa era dela, assim foi. Chamamos um taxi para levar a amiga para casa e o guincho para tirar a sucata dali. Os guinchos de antigamente não eram as plataformas modernas que temos hoje, eles simplesmente engatavam a frente do carro e, a 45 graus, o puxava. O guincheiro informou que alguém teria que ir dentro do carro rebocado, também praxe da época, me prontifiquei, mas fui negado, teria que ser alguém com carta de habilitação, mamy era a segunda da fila.

Já era manhã de domingo quando o guincho entrou pela Paulista, puxando o carro semi destruído e com mamy ao volante, o traje – penhoar e bob – ficava mais chamativo à luz do dia, eu e meus amigos fazíamos questão de, a cada semáforo, parar ao lado e gritar, “vai dona Maria, vai pro tanque”, não era difícil encontrar outros transeuntes pegando carona na zoeira. Carro na oficina, chegamos em casa, ao fechar a porta já imaginava o discurso, mas não esperava tamanha intensidade. Do carro, não disse uma palavra, agora falou durante meses da vergonha que passou tendo que andar de guincho, ainda mais vestida daquela forma.

terça-feira, 9 de março de 2010

Carne Enlatada x Carne Fresca


Jandira foi embora. Fora nossa secretária do lar durante os últimos quatro ou cinco anos, moravam em casa, ela e um casal de filhos, o menino uns quatro anos mais velho, a menina de mesma idade. Eram minhas companhias, com eles assistia aos desenhos prediletos e dividíamos horas a frente de tabuleiros de jogos, agora isso se fora, os amigos, a protetora e a cozinheira de mão cheia. Como estava na casa dos nove anos, precisava de alguém para ajudar nas tarefas da cozinha, mamy prontamente fora à caça de uma substituta a altura, mas estava difícil, lembro-me de uns bons meses almoçando na casa de um vizinho de rua, onde acertamos um valor pela refeição diária. O prato predileto da família era uma carne enlatada, lata essa que já vinha com o abridor, esquentava a lata, abriam e jogavam no prato, uma “delícia”, hoje acho que deveria ter ficado neste “status quo” por algum tempo, teria uns bons quilos a menos.

Certo final de tarde estava em casa, solitário e movendo “carrinhos de ferro” de lá para cá, esperando mamy voltar de sua segunda jornada de trabalho para comermos algo decente, quando, para minha boa surpresa ela entra acompanhada de nossa nova secretária. Loira natural, rodeava os vinte anos, rosto bonito e corpo que acompanhava o conjunto, parecia a “Jennie”, só que o gênio fora a mamy, que achou aquela deusa perdida a procura de um emprego e de um lar. Meus olhos brilharam de forma perceptiva, claro que minha desculpa utilizada era a de um almoço caseiro novamente, colou. A primeira noite foi difícil, apesar da tenra idade, já estava descobrindo os desejos e aquele monumento agiu como um catalisador da libido. Demorei, mas peguei no sono.

Acordei e quase enfartei, primeiro porque o costume de ficar sozinho me fez esquecer, por instantes, de que agora alguém morava em casa, depois pelo traje que vestia a moçoila, um short de jeans com pontas desfiadas cobria somente metade das fartas nádegas, uma regata de cor rosa clara, apertada, deixava a mostra os ombros e o contorno do busto, interessante relembrar dessa visão depois de tantos anos. Tomei café com ela me rodeando e perguntando do que e como gostava, fui descrevendo a lista de guloseimas, omitindo a principal. Arrumei-me e fui ao colégio, aquele dia foi especial, corri as dez quadras como nunca antes, precisava dividir esta experiência com os amigos mais chegados, no caminho inflava o peito, sabia que seria o mais invejado da turma.

Alguns dias haviam se passado, não conseguia deixar de fixar os olhos nela, porém sempre que ela me fitava, virava a cabeça e rubrava a face. As nossas conversas se resumiam ao básico diário, comida, roupa, arrumação. Extravasava a ansiedade em longas conversas com o zelador do prédio, um verdadeiro amigo e conselheiro, tanto que me explicou o porquê estava me sentindo daquele jeito, também revelou que ficava com torcicolo a cada vez que ela passava pelo longo corredor da portaria, sua principal dica foi sobre os assuntos que deveria puxar com ela, ouvia atentamente e voltava para casa para treinar mentalmente. Por várias vezes a boca se trancou quando achava que seria o momento certo, de qualquer forma fomos ficando mais amigos, agora já assistíamos televisão juntos, ouvíamos música numa pequena vitrola que ganhara no natal (assunto esse que merece um espaço especial) e conversávamos sobre assuntos diferentes das rotinas do lar. Mamy estava feliz com nossa amizade, acredito que era isso que ela esperava, uma moça para me fazer companhia, além das tarefas rotineiras. Conseguiu.

Era final de tarde, estava na cozinha beliscando algum quitute quando entra a moça, me viu, olhou no relógio e soltou – estou indo tomar banho, quer me acompanhar?

Um calafrio imediatamente tomou conta de meu corpo, com as mãos trêmulas e suando frio balancei levemente a cabeça em sentido de positivo, ela veio ao meu encontro, me pegou pelas mãos e fomos em direção ao seu minúsculo banheiro, que se localizava no final da área de serviço. Entramos, ela tirou sua roupa e perguntou se não queria imitá-la, obedeci. Ligou o chuveiro e começou a se ensaboar, a visão era extraordinária, nunca havia visto uma mulher nua ao vivo e a cores, e principalmente, ao alcance das mãos. Continuei parado, encostado na parede e olhando, só olhando, sem coragem de fazer mais nada, ela com um sorriso maroto iniciou uma conversa sobre desejos, se era novidade, se estava gostando, e assim ia, as respostas eram dadas com um sinal de positivo, nenhuma palavra era emitida por mim. Qual seria o próximo passo? O que eu deveria fazer? Até onde iria tudo aquilo? Quantas vezes eu poderia ficar vendo ela se banhar depois desse dia? Dúvidas e mais dúvidas.

Um barulho estranho invadiu a casa de banho, um batido de porta fez sumir o belo sorriso que estampava a sua bela face, logo a voz de mamy, da frente da porta, anunciava a sua chegada precoce, o silêncio perdurou por poucos instantes, mamy voltara à porta, agora perguntando onde eu estava. Ela gaguejou, mas se saiu bem, estava na casa de um amigo.

- E porque o chinelo e as roupas dele estão aqui na lavanderia?

Outro silêncio e a repetição da pergunta, ela abriu a porta e denunciou nossa cumplicidade, mamy perplexa a tocou de casa na mesma hora e veio em minha direção, perguntava há quanto tempo isso vinha acontecendo, respondi e tive que jurar que era a primeira vez. Ela fez uma cara de alívio. Eu chorei por noites e noites. Além de perder a minha deusa, fiquei sem a seqüência das aulas e ainda por cima, voltei à carne enlatada.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Copa do Mundo


Em Guadalajara tudo pronto para nossa estréia frente à Espanha, bem que este jogo poderia estar acontecendo no Morumbi ou Maracanã, se não fosse a recusa, pelo presidente Sarney, do convite feito pela Fifa ao Brasil para sediar esta Copa, então, viva el México. Primeiro de Junho de 1986, os times entram em campo e a gritaria se generaliza na Avenida Paulista, sede do maior telão instalado na cidade, em frente ao prédio da Gazeta a multidão se aglomera para assistir mais um show brazuca, e como não poderia ser diferente, lá estava eu. Logo o primeiro ato mostrou que aquele dia seria confuso, após a formação tradicional o DJ mexicano tocou o nosso Hino à Bandeira ao invés do Hino Nacional, nós, calados, ouvimos e reclamamos, afinal quem sabe a letra desse hino. Meio dia o jogo começou, sem muita empolgação o que restava era falar mal do time e tomar umas “brejas”, acompanhado de um amigo, em instantes trocávamos comentários e críticas com os torcedores ao lado. Dezessete minutos do primeiro tempo, um dos jogadores mais bonitos do elenco marcou o gol brasileiro, Sócrates abrira o placar, Telê Santana deu dois pulinhos, e foi isso. Com o fim do jogo e a vitória magra do selecionado, fomos comemorar, a verdade é que já estava a poucas gotas de uma bebedeira enorme, mas não recusei, juntamos alguns mal acabados e nos instalamos em um bar qualquer da avenida. Meia hora de conversa sobre o jogo e o assunto virou para “mulher”, afinal, amigos numa mesa de bar, cerveja, futebol e mulher são os assuntos do cardápio. Meu amigo levantou-se, momentos depois retornou com a notícia, havia combinado de nos encontrarmos com duas amigas, no final da tarde, em um bar de Pinheiros, ali ficamos até o horário do encontro.

A Praça Benedito Calixto é o palco de uma feira de antiguidades e inutilidades, todo domingo as barracas são montadas e são ofertados ao público, gêneros dos mais diversos preços, idades e gostos, aliás, bem duvidosos. Seria em um bar situado nessa praça, o “Bar Bar O”, o local por si já era psicodélico, um galpão em dois andares, térreo e sub-solo, em cima as mesas, dezenas delas, do bar estilo americano saiam as mais variadas e estranhas iguarias, acompanhadas de muita cerveja e pinga. O andar de baixo servia de local de guarda de fantasias e carros alegóricos, amontoados, tomavam conta de quase todo o espaço, o que sobrava, abrigava os malucos do pedaço. Algumas alegorias serviam de decoração no galpão principal, bem acima de nós, uma águia imensa balançava, pendura no teto por fios. Sentamos e esperamos as companhias, já não tinha idéia do que falar para as meninas, nem meu nome sabia mais, enfim, o Brasil ganhou, viva. As meninas chegaram, me apresentei e me encantei, eram mais bonitas que o Sócrates, tá valendo. Começamos a conversar, na verdade mais ouvia que falava, até que tudo começou a girar, a águia já não estava mais presa ao teto e sim voando pelos ares do galpão, mal conseguia fixar os olhos nos três. Cinza, preto, desmaiei.

Quando abri os olhos me deu vontade de fechar novamente, a cena era estranha, eu deitado no chão, todo molhado por ter carregado comigo algumas mesas e tudo que nelas continha, uma roda de pessoas me cercavam e ao meu lado direito um garçom com um copo de água com açúcar, ao meu lado esquerdo uma das meninas com um copo de água com sal, ambos implorando para que eu bebesse e discutindo entre eles qual seria o elixir da cura. Aos poucos fui recobrando a consciência e percebendo o vexame, queria sim um copo cheio do pó de sumiço ou da invisibilidade, levantei, recomporam as mesas nos devidos locais, contudo todos os olhares estavam voltados para mim, até a águia me olhava com um certo sorriso nojento. Na verdade já estava bem, parece que os poucos segundos foram suficientes para o corpo eliminar todo o álcool absorvido durante o dia, a cabeça não doía mais, teria total condição de um recomeço, mas a vergonha era grande, fingi que ainda estava horrível e pedimos a conta.

Perdi as amigas, de novo um encontro às escuras fora amaldiçoado, tudo bem, nada era pior do que estava por vir, o Zico, o Sócrates e o Júlio César perderam pênaltis no mesmo jogo e fomos eliminados pela França, quer mais, a Argentina foi campeã. Nunca mais fui à Paulista.