Já havia prometido a mim
mesmo que nunca mais acamparia, nada contra os que apreciam esta modalidade de viagem,
mas sou mais voltado a conforto e conveniência. O convite veio, parecia
tentador, vamos fazer um camping selvagem – isso significa sem estrutura
alguma, simplesmente achar um local ao lado de um rio e montar as “ocas” –
normalmente recusaria, contudo, as companhias pareciam interessantes dentro da
proposta desenhada. Aceitei.
Logo no meio da semana informei minha mãe sobre a dita aventura e fui
me preparando, mala e espírito. A semana correu e sexta logo apontou na
folhinha. Mochila pronta, disposição para enfrentar situações inusitadas e fora
de minha vontade. Estava de partida quando a mamy chegou carregando um garrafão
(aqueles de 5 litros, famosos pelo conteúdo tradicional “sangue de boáh”)
carregado até a boca de licor de jabuticaba, de receita caseira e preparado com
carinho e especialmente para esta viagem. Vale dizer que a mamy não é a
prendada dona de casa usual.
Carro cheio de malas e barracas, me sentei no banco traseiro com o
garrafão aos meus pés, três outros amigos compunham a carruagem. Outros dois
carros já haviam saído com mesmo destino, iríamos nos encontrar numa
cidadezinha ao sul de Minas.
A viagem começou e logo iniciamos nossas distrações habituais, de fazer
inveja ao programa do Silvio Santos, jogávamos “cinema”, “música”, “mímica” e
alguns “RPG’s”. A animação inicial logo acabou nas curvas apertadas e escuras
das estradas mineiras. Silêncio.
Aquele bólido me incomodava, a cada curva ele tendia para o lado e
apertava o já estreito espaço dedicado as pernas, a solução foi imediata.
Quando a rolha foi retirada o aroma de jabuticaba preencheu o carro, encheu a
boca de saliva, se vendia como um belo elixir. Claro que fui o primeiro a
entornar o garrafão – com certa dificuldade pelo espaço confinado – goela
abaixo.
O gole inicial “desceu” queimando todas as impurezas acumuladas em anos
de ostracismo, acredito que naquele momento fui abandonado pelos anjos e
demônios, era forte, ardido, quente, horrível, passei adiante. As caras e
comentários sempre divergiam sobre o mesmo tema, “eita troço ruim”, ainda bem
que o motorista apenas experimentou com um pequeno gole. Após a primeira rodada
pairava a dúvida entre jogar pela janela ou despejar no primeiro rio que
cruzássemos, contudo, a nossa “consciência ecológica” nos demoveu de tal ideia
e resolvemos ser mais práticos. Bebemos.
A cada novo gole o gosto parecia ter sumido, deixando uma sensação de
estarmos bebendo água suja, após mais alguns goles, até isso se foi. Chegamos
ao nosso destino algumas poucas horas depois. Os integrantes que lá já estavam
não entenderam nada quando saímos andando nas nuvens, tropicando em cisco de
pedra e sem anexar palavra a palavra. Fui montar minha barraca, olhei para um
lado, olhei para outro, escolhi um local que me parecia sólido e nivelado,
montei.
Nos reunimos para uma “janta” regada a violão, cantoria e a outra
metade do garrafão que resistiu à viagem. Logo o sono tomou conta e fui me
recolher, para minha surpresa ao abrir a barraca me deparei com minha mochila
boiando em um palmo de água, pensei, pensei, analisei e percebi que tinha
escolhido a margem do rio, portanto, um charque. Fui dormir no carro, amanhã
penduraria as roupas para secar. Acordei com a cabeça fora do corpo e foi assim
durante quase todo o final de semana. Voltamos domingo à noite.
Estava desarrumando a mochila quando mamy entra no quarto segurando uma
taça contendo um líquido de cheiro reconhecível, recusei prontamente e comentei
sobre o estrago que tal bebida caseira havia feito na turma, que aquilo era,
certamente, a coisa de pior gosto que já havia experimentado. A insistência foi
tamanha que cedi e dei um gole, outro, outro, o gosto doce de textura licorosa
era, de longe, muito diferente da experiência recente, como poderia ser?
Após os comentários de elogio e fatalmente de comparação, mamy revelou
que pegara esta receita naquela semana, com uma amiga do trabalho, leu e foi
fazer:
- Esprema e ferva a jabuticaba, adicione açúcar, adicione 5 litros de
álcool de cereais, repouse por 24 horas, coe e pronto.
Como disse os dotes
culinários não eram dos melhores, lendo a receita, mamy entendeu tudo, ou quase
tudo. Desceu até o mercado, jabuticabas no carrinho e o tal de álcool de
cereais, que seria isso? Nunca havia ouvido falar, a opção parecia simples,
adicionou 5 litros de álcool ZULÚ, esses de limpeza, que tem em toda casa. A
dúvida sobre o elixir estava resolvida, a questão agora era, o porquê uma mãe
presenteia o filho com 5 litros de álcool 98 graus? Esterilização.
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